As ruas levantam muita poeira As mãos procuram abrigo para os olhos.

 

As ruas levantam muita poeira. As mãos procuram abrigo para os olhos. Manuel Gomes, polícia. Vive de aluguer na casa do Bai  Khamssá. Edifício colonial repintado várias vezes. Tem antena de TV, janelas altas e grandes. Tecto falso com buracos, moído por abelhas-carpinteiras, gigantes. Faz compras mensais à vale. Na mercearia do seu senhorio.  Tem uma rotina predefinida pelos vínculos da farda cinzenta.

Hoje as pessoas foram obrigadas a ficar em casa. Menos ele e sua corporação. O povo e a pátria o aguardam para salvamentos. Socorros e proteção. Limpa as botas e passa graxa preta. Ficam brilhantes. Isso lhe alegra. Apesar da poeira não lhe depositar nenhuma mi de esforço. Pega na arma e põe na cintura que ameaça cair com as calças. Aperta o cinto que reclama por mais um furo para sustentar a magreza.

Manuel Gomes. Solteiro e sem amiguinhas. Tem em seu acervo, coleções de fotografias da sua última paixão. A mulata Vanda. Ele a lembra com amargura das façanhas do amor. Guarda as fotos para sempre poder amaldiçoar as lembranças. Mesmo ela ainda viva, já lhe pintou uma cruz vermelha na testa. Foi traição de amor nas fileiras da formação. 


Vanda tinha problema de beleza, de cheiro e de gostos. Tudo era demasiado presente nela. Quando todos perfilavam, ela desfilava e suas nádegas dividiam o seu corpo em hemisférios. E seu uniforme foi feito sobre medidas extremas das suas curvas. Manuel Gomes não sofria de muitos ciúmes. Confiava nela. Assim como combinaram e juraram quando de mãos dadas se alistaram para polícia. Com beleza de transbordar salivas, Vanda passou em secreto a ser dormida por instrutores. Manuel não acreditava quando ouvia, até ao dia em que viu com seus próprios e lacrimosos olhos. Calou e engoliu a fatia de desgosto para não perder o curso...


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